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30.9.08

Porto Redux - O Mercado do Bolhão


Penso que este é o momento pertinente para partilhar algumas ideias acerca do Seminário e Workshop Porto Redux, que se realizou entre Abril e Maio de 2008, no Espaço Oficina da Rua Miguel Bombarda no Porto e foi realizado pelo magazine digital Opozine; pela FAUP- (CCRE + MIPA), e pela revista Dédalo.

O Porto Redux pretendeu, em três sessões temáticas, e partindo do exemplo do Mercado do Bolhão: (1) Compreender as novas dinâmicas urbanas da cidade; (2) Compreender a importância da reabilitação urbana no desenvolvimento da cidade; (3) Enquadrar o papel dos arquitectos e das escolas de arquitectura nesse processo de transformação.

Contou com a presença de muitos actores fundamentais desses processos, entre eles, os professores Álvaro Domingues e Rio Fernandes, o Dr. Rui Moreira, os arquitectos Souto de Moura, Nuno Portas e Correia Fernandes. Geógrafos, Economistas, Arquitectos, Urbanistas que tentaram perceber o que é, e o que pode ser a cidade contemporânea. Mas também, quais são as novas dinâmicas emergentes que geram os traçados voluptuosos e invisiveis das novas metropoles. Mostrando simultaneamente que a actividade da arquitectura não se esgota nos limites interiores das paredes da casa, mas é uma área fundamental para pensar e desenhar a cidade.

Tentando ser o mais possivel sintético e essencial gostaria de deixar aqui no Baixa do Porto (e também no
opozine, no porto.redux e no CCRE) ao longo das próximas duas semanas os contributos de alguns intervenientes no Seminário. Mas também, e isto parece-me o mais importante para o debate que se está a gerar em redor do Bolhão, apresentar aqui as propostas realizadas pelas quatro equipas de alunos e professores no Workshop Porto Redux.

As propostas coordenadas pelos arquitectos
André Eduardo Tavares, Camilo Rebelo, Filipa Guerreiro + Tiago Correia, Nuno Brandão Costa e Tiago Coelho, foram realizadas por estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP); alunos do Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público (MADEP - FBAUP); e alunos do Departamento de Arquitectura da Universidade Lusíada. Pretendeu-se reflectir sobre o Mercado do Bolhão no seu contexto iminentemente urbano, cultural, sociológico e histórico, propondo programas, estratégias, que permitam recuperar não apenas a sua forma, mas também, o seu conteúdo simbólico e urbano - a sua marca na cidade.

Penso que o trabalho produzido nos quatro dias de workshop e a discussão produzida nas três sessões do seminário foram da máxima importância. Não apenas para nos libertar de algumas ideias tradicionalmente pré-concebidas, mas também, para percebermos que existem soluções rentáveis e criativas. E que, provavelmente, as soluções mais rentáveis serão as mais criativas. Acabou o tempo do isto é isto e aquilo é aquilo, das certezas absolutas, dos programas fixos e das estratégias demasiado formalistas. Nestes tempos onde tudo (até no Porto) muda demasiado rapidamente, ganharão as propostas e as ideias que apostam na diversidade e na flexibilidade, que apostam nos programas criativos (não necessariamente arrojados) e que apostam e constroem estratégias meta-urbanas e, não apenas, localistas. Que vêem para além das paredes que limitam os edíficios, como, de certa maneira, diz o Arquitecto Nuno Portas no texto que serviu de mote à segunda sessão do Seminário. Texto que aliás propunha que fosse o primeiro desta série de releases que o Porto Redux apresenta, a partir de amanhã.

Espero que este seja um contributo essencial para esta discussão, mas também, para toda a discussão em volta da cidade, para toda a discussão acerca daquilo que o Porto é, e poderá ainda ser.
Com os melhores cumprimentos
Pedro Bismarck

+++ Links
www.opozine.blogspot.com
http://web.ccre.arq.up.pt/projectos/show.php?projecto_id=241

+++ Videos conferências
aqui
+++ Arquivo fotográfico
aqui

17.9.08

PORTO REDUX - NUNO GRANDE


Debater criativamente a cidade: a experiência Porto Redux
Nuno Grande


Uma economia da criatividade e da boémia
As cidades são hoje o palco central da criatividade, sendo, simultaneamente, o seu alimento e o seu reflexo. Por este facto, muito se vem debatendo sobre “cidades criativas” e sobre a importância das suas “comunidades de criadores e boémios”, para pegarmos num chavão caro ao economista e ensaísta americano Richard Florida, um dos principais “gurus” desta actualíssima reflexão
[1].
Em Portugal, só muito recentemente se começou a aflorar a problemática, quase sempre através do interesse despertado no seio de universidades e instituições culturais; quase nunca a partir de políticas estruturantes, de origem estatal ou municipal, lançadas nesse sentido. Dir-se-ia, a bem da verdade, que a criatividade deve ser, por natureza, livre e espontânea, não-decratada, não-regulada, não-instrumentalizada; mas, no entanto, se ela emerge, se ela se potencia, se ela se dissemina, cabe às cidades perceber o seu progressivo impacto nas respectivas economias urbanas, criando os necessários “rastilhos” para que a sua energia e o seu efeito propagador não esmoreça.
Enquanto capital cosmopolita do país, Lisboa vem concentrando muitos desses escassos “rastilhos” políticos, alimentando projectos em fase embrionária, apoiando encontros e festivais independentes que teimam em não desaparecer, combinando eventos de forma sinérgica, ou mesmo integrando iniciativas individuais noutras de índole institucional. No Porto, e deixando de lado a já estafada discussão sobre o “síndrome da segunda cidade”, a verdade é que, desde o início da década, vive-se uma certa letargia no apoio e na mobilização da massa crítica e criativa que sobreviveu à previsível “ressaca” gerada pelo “fim de festa” da Capital Europeia da Cultura, e pela sequente eleição municipal de Dezembro de 2001.
Neste contexto, a criação cultural emergente do Porto tem-se evidenciado, sobretudo, por “reacção” política, o que, sendo recorrente na história da cidade, produz uma mútua e insanável desconfiança entre a sua “comunidade de criadores e boémios” – para voltarmos a Richard Florida – e o actual executivo autárquico. Este vem encetando uma política de retracção do seu investimento financeiro do seio das empresas municipais e dos equipamentos culturais herdados, em prol da sua alienação ou concessão à gestão e ao patrocínio privados, numa perspectiva de filiação mais neo-liberal do que social-democrata. No mesmo sentido, as acções municipais de maior visibilidade pública – quase só apoiadas na importação “franchisada” de eventos sazonais temáticos – aproximam-se mais da lógica do entretenimento de massas, do que de uma programação cultural estruturada e segmentada.
Discutível, embora congruente com uma linha de pensamento assumidamente inflexível nesta área, esse desinvestimento municipal na cultura obliterou o protagonismo programático e interdisciplinar das estruturas intermédias da cidade – como são exemplos, o Teatro Municipal Rivoli ou a Galeria Municipal nos jardins do Palácio de Cristal – esvaziando um importante nível de incentivo que antes se situava, algures, entre os criadores emergentes e as grandes instituições consagradas da cidade – Museu de Serralves, Teatro Nacional de São João e Casa da Música. Como é expectável, e dada a sua natureza global, estas instituições não possuem vocação, nem mesmo obrigação, de suprir o desaparecimento desse nível intermédio local.


Espaço Oficina Debates Porto Redux + Praça-terreiro proposta pela equipa de André Eduardo Tavares
O efeito Bombarda
Por outro lado, e coincidindo com a “movida” urbana que convergiu na Capital Europeia da Cultura, um conjunto de galeristas de arte portuenses decidiu fixar-se num ponto incaracterístico da cidade consolidada – a Rua Miguel Bombarda – atraindo, para ali, além do seu tradicional negócio, outras iniciativas empresariais e associativas, na esfera da criação cultural, que acabariam por ser beneficiadas pela visibilidade pública obtida em dias de inauguração simultânea. O próprio município percebeu, mais recentemente, a importância dessa visibilidade, juntando o seu contributo logístico ao clima de “festa urbana”, crescente naquela artéria, e para a qual anuncia agora uma pedestrenização parcial. A fixação desse “clima” criativo partiu assim de iniciativas particulares e espontâneas, que souberam retirar partido, para lá dos aspectos comerciais inerentes, dos efeitos multiplicadores que a “economia da experiência” cultural pode trazer a uma cidade, onde pouco mais vem acontecendo neste âmbito – multiplicação que gera ou acompanha, inclusive, a disseminação de casos semelhantes, noutras artérias urbanas da Baixa, como na Cordoaria, nas ruas Cândido dos Reis e Galeria de Paris.
É pois possível afirmar que este “efeito Bombarda” vem sustentando a agregação da referida “comunidade de criadores e boémios” no centro do Porto, ocupando, paradoxalmente, esse nível intermédio de animação cultural que as políticas de âmbito municipal deixaram de acalentar. Mais: ao permitir que essa agregação se processe de modo informal e independente dos poderes públicos, esse efeito vem tornando este tecido criativo mais consciente do seu papel crítico e da sua capacidade de intervenção nas questões urbanas, como aliás acontece nalgumas iniciativas organizadas naquele âmbito.
É neste sentido que valerá aprofundar o exemplo da Porto Redux, uma plataforma pró-activa de debate e intervenção sobre a cidade, que articulou, ao longo dos últimos meses, um espaço da Rua Miguel Bombarda – a Oficina da Galeria Fernando Santos – com fóruns de discussão abertos na net – Opozine e Dédalo – e outros de cariz mais institucional como o Centro de Comunicação e Representação Espacial (CCRE) e o Mestrado em Metodologias de Intervenção no Património Arquitectónico (MIPA), todos eles gravitando em torno de professores e alunos da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). Não sendo esta a primeira vez que a FAUP se disponibiliza para investigar e debater questões de política urbana, a mesma deu aqui, de forma particularmente criativa, o seu contributo para uma das mais recentes polémicas em torno da alienação de património urbano municipal – a proposta de concessão, à iniciativa privada, da transformação e gestão futura do conhecido Mercado do Bolhão, situado na Baixa portuense (projecto do arquitecto Correia da Silva de 1915).

Porto Redux: o debate
O debate, desenvolvido ao longo de três sessões, serviu-se daquele caso como pretexto para discutir, de forma abrangente, a relação entre cultura e património, entre permanências e emergências urbanas, ou ainda entre saberes e poderes em jogo na transformação da cidade, indagando que papel caberá à arquitectura nessa cíclica mediação. Como afirmava Pedro Bismarck, membro da organização, no texto de lançamento da iniciativa, “à arquitectura sempre coube essa tarefa de ir construindo, de medir, de servir de dispositivo e de relação essencial entre o homem e o seu meio ambiente, entre o homem e a sua cidade. E esse é um espaço que a arquitectura não deve deixar vago, não deve abdicar”.
Dos diversos temas disciplinares debatidos, destacaram-se, na primeira sessão, o papel simbólico do património urbano, por vezes transformado em mera “cenografia” turística, como bem demonstrou Álvaro Domingues, professor de Geografia Urbana na FAUP; ou como motivo de reflexão sobre a mobilidade e o acesso aos centros, como exemplificou Pedro Gadanho, arquitecto e docente na instituição, a partir da experiência “Auto-silos para Lisboa” realizada no âmbito da ExperimentaDesign; mas também, o tema da progressiva transformação higienista dos quarteirões do Porto, esventrados e refeitos num só gesto homogeneizador, através de projectos do tipo “chave-na-mão” ou “pronto-a-vestir”, como apontou Nelson França, economista e promotor da Chamartin Imobiliária; modelo ao qual se opôs Manuel Correira Fernandes, director do MIPA-FAUP, propondo, antes, uma reabilitação patrimonial criteriosa, participada e atenta à evolução diferenciada das frentes urbanas da cidade.
Na segunda sessão, Rui Loza, arquitecto da “Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana”, ainda que apoiado em exemplos anteriores às actuais políticas de reabilitação, defendeu a ideia de que o poder político não deve ficar refém do receio de reconverter o seu património histórico – fazendo a ponte com a polémica do Bolhão – ao que Alexandra Gesta, responsável pelo processo de renovação do Centro Histórico de Guimarães, retorquiu, ironicamente: será que estes edifícios sofrem, mesmo, de problemas de “disfuncionalidade” na cidade? Será que não sofrem de culpas que pertencem, afinal, aos homens? Que culpa tem o Mercado do Bolhão da falta de uma gestão eficiente? Ou de estacionamento? Ou de dinâmica empresarial?
O geógrafo Rio Fernandes abordou criticamente a progressiva “periferização” dos centros tradicionais pela introdução de políticas de promoção imobiliária, mais interessadas em atrair o capital privado do que em lançar critérios ponderados de reabilitação urbana, ao que Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto, juntou a ideia de que o estabelecimento de parcerias público/privado na gestão de edifícios de valor patrimonial, não pode significar a demissão de responsabilidades por parte do detentor desse valor colectivo, nem a ausência de regras de jogo claras, no espaço e no tempo da sua concessão.
Na última sessão, Francisco Barata, Presidente do Conselho Directivo da FAUP e Pedro Leão Neto, docente e responsável do CCRE, criado naquela faculdade, defenderam a possibilidade de se reforçar o papel das instituições de formação e de investigação, na mediação entre a decisão política, a intervenção técnica e a recepção pública dos processos de transformação. Já o crítico e programador cultural Miguel von Haffe Perez mostrou-se descrente em relação aos efeitos dessa mediação entre poderes e cidadãos, dado não existir na Europa, como ocorre nos EUA, um espírito de responsabilidade cívica das instituições, na transformação das cidades onde se inserem. O arquitecto Eduardo Souto Moura encerraria este ciclo afirmando, de modo lapidar, que a grande questão está na ausência de uma clara cultura de cidade, de projecto, e mesmo de património, quer na legislação específica existente, quer na gestão quotidiana da maioria das autarquias portuguesas.
Pese embora a diferença dos contributos, o debate Porto Redux permitiu enquadrar o património urbano nas problemáticas que se colocam, hoje, a partir do caso do Mercado do Bolhão – salvaguardar ou reconverter; gerir ou alienar –, e que o arquitecto e urbanista Nuno Portas, professor catedrático da FAUP, sintetizou, de forma oportuna, num texto que enviou para debate:
“Estes programas são sujeitos a duas tentações extremas: a da continuidade temática a acompanhar o mimetismo físico ou, no outro extremo, a da mudança radical de programa, em geral por razões financeiras, que já são lugares comuns, e que transformam o existente numa espécie de caricatura, deixando alguns elementos do antigo como álibis envergonhados da mudança. Entre estes dois extremos, o conservador e o novo-rico-fantasista, há felizmente diversas composições de funções e linguagens dos espaços que podem trazer novidade à área consolidada, mas decadente, à sua volta.”
Ainda que não fosse sua intenção, este texto acabou por balizar as questões levantadas no workshop de arquitectura que se seguiu ao debate, no qual se ensaiaram, de novo a partir do caso do Bolhão, conceitos de reabilitação inerentes à realidade da própria Baixa portuense.

Corte proposto pela equipa de Nuno Brandão Costa + Nova cobertura proposta pela equipa de Tiago Coelho
Porto Redux: o workshop
Ao longo de uma semana, cinco equipas coordenadas por arquitectos e incluindo mestrandos e estudantes das escolas de Arquitectura e de Belas-Artes do Porto, conjugando outros contributos disciplinares por parte de geógrafos, historiadores, economistas e artistas, trabalharam no sentido de ultrapassar essa dicotomia que, no debate ainda em curso, opõe duas posições, aparentemente inconciliáveis: a que aposta na manutenção da actual estrutura física do Mercado do Bolhão, tendendo a defender o projecto de reabilitação do edifício ganho em concurso público, em 1992, pelo arquitecto Joaquim Massena; e a que aposta na conversão integral do edifício, numa estrutura comercial, do tipo shopping, com base na proposta apresentada pela TranCroNe (TCN), única empresa que se submeteu ao recente concurso do tipo “concepção-construção-gestão”, lançado pelo actual município.
Não querendo optar à partida, nem pelo “conservadorismo”, nem pelo “novo-riquismo-fantasista” – para voltarmos às designações de Nuno Portas –, aquelas cinco equipas preferiram procurar, especulativamente, as razões da necessária mudança, na história do próprio edifício, nela incorporando ainda as transformações geradas pelas dinâmicas urbanas contemporâneas.
Os projectos, de carácter exploratório, agora apresentados, situam-se, assim, entre: a proposta de demolição do actual Mercado do Bolhão, substituindo-o por um edifício onde o conceito de “troca” mercantil se expande para o de “interface” de pessoas, ideias, bens ou mesmo de valores bolsistas – proposta da equipa de Camilo Rebelo, que exaspera assim, radicalmente, a ideia de conversão multi-funcional proposta pela TCN –; e o restauro do projecto original, do elegante mercado que Correia da Silva desenhou em 1915 (entretanto deturpado), onde se inclui a cobertura integral do edifício por uma estrutura em ferro e vidro, libertando o interior de alpendres, telões e passadiços – proposta da equipa de Nuno Brandão Costa, que exaspera, pelo contrário, “um recuo no tempo das formas para alcançar o charme perdido”.
Apesar de estarem, formalmente, nos antípodas um do outro, estes projectos assumem, em comum, a importância dos actuais fluxos pedonais na Baixa portuense, que Camilo Rebelo estende até uma cobertura ajardinada – criando uma horta urbana colectiva –, e Nuno Brandão Costa até ao subsolo, onde propõe um novo e amplo piso comercial em forte conexão com a estação de Metro ali projectada por Eduardo Souto Moura.
Entre estes dois extremos, colocam-se os restantes três projectos, apostando, antes de mais, em manter o edifício existente, na sua estrutura e funcionalidade de base, e potenciando novas relações de uso e de acesso entre os principais níveis do Mercado – os da Rua Formosa, Rua Sá da Bandeira e Rua Fernandes Tomás. Neste sentido, a equipa liderada por André Eduardo Tavares opera sobretudo ao nível do espaço central, “limpando-o” de múltiplos pavilhões e alpendres acrescentados ao projecto original, de forma a torna-lo num “terreiro urbano” (literalmente em saibro), onde a função de mercado sazonal pode ocorrer (como nos antigos rossios) com outras actividades culturais ao “ar livre”. Lembra, também por isso, uma espécie de “Plaza Mayor”, repentinamente aberta no coração do denso tecido portuense.
Outra proposta, da equipa de Filipa Guerreiro e Tiago Correia, tira partido das ruas longitudinais, geradas pelos sucessivos pavilhões interiores, juntando-as e ligando-as, num dos topos, através de uma nova tessitura “urbana” formada por escadas e rampas pedonais. Através destas, acede-se a uma plataforma intermédia, à cota da Rua Sá da Bandeira, dentro da qual instalam uma “loja-âncora”, catalisadora de novos usos comerciais, e sobre a qual propõem a realização de eventos culturais e feiras temporárias temáticas, destinadas a demais tipos de comércio e de público visitante.
Finalmente, o projecto coordenado por Tiago Coelho retoma a ideia de cobrir integralmente o centro do Bolhão por uma estrutura “leve” e translúcida, ao mesmo tempo que liberta e regulariza esse núcleo interior para usos diversos lúdico-culturais, a partir de contentores móveis destinados a espectáculos musicais e performativos. É nesta nova cobertura central, expressivamente ondulante, que o projecto assume a sua “marca” de contemporaneidade, em contraste com o carácter telúrico da fachada e a linearidade da cobertura existente.
A dúvida dos vendedores, pela voz da equipa de Camilo Rebelo + Corte longitudinal. Proposta da equipa de Filipa Guerreiro e Tiago Correia
O efeito Bolhão
Como referimos, todas estas propostas aprenderam com o debate e a experiência em torno das dinâmicas que ocorrem no Porto contemporâneo, centrando-se sobre os três níveis que podem ligar o Mercado do Bolhão a uma vivência mais integrada no quotidiano urbano – o subsolo, a partir da presença do Metro; a “pátio” central, enquanto espaço de atravessamento e de estadia de peões; e a cobertura, ou “quinto alçado” do edifício, aqui explorada na sua potencialidade formal.
Deste modo, estes projectos provam que um conceito de reabilitação urbana pode começar, não na defesa “respeitosa” e neutral das características patrimoniais dos edifícios, mas no grau de transformação que sobre eles seja possível imprimir, desde que avaliada a sua integridade matricial e simbólica. No entanto, estas propostas não se resumem à transformação do hardware do Mercado do Bolhão; avançam até ao software, isto é, até à necessidade de encontrar um conceito de programação – personificado na ideia de um gestor ou de uma equipa de programadores culturais – que “injecte”, neste simbólico lugar, a imaginação criativa que parece faltar ao projecto apresentado como solução pelo município – o shopping center proposto pela TranCroNe.
Revitalizar o Bolhão não pode passar pela substituição da sua actual “mono-funcionalidade” mercantil, por uma futura “mono-funcionalidade” comercial, sob pena de nada mudar no centro do Porto. Aprenda-se, por isso, com o fenómeno das ruas Miguel Bombarda, Cândido dos Reis e Galeria de Paris e estenda-se a “cartografia criativa” da cidade até ao Bolhão, enchendo-o de novos espaços dedicados à produção e à difusão cultural, portas meias com o quotidiano de um mercado; misture-se, assim, informalmente, ateliers, galerias, residências artísticas, lojas de design, de música, bares e restaurantes temáticos, com as frutarias, as peixarias, os talhos, as bancas das flores, dos queijos e dos enchidos, potenciando, afinal, a vocação profundamente cosmopolita deste “edifício-cidade”, também fomentada pela sua forte atractividade turística.
Da experiência Porto Redux nasceu assim a ideia de um novo “efeito Bolhão”, que pode e deve ser agarrada politicamente, como um “rastilho” para a afirmação de uma cidade mais criativa. Os criadores e os boémios agradeceriam; a economia da cidade também.

+++ Nuno Grande
Nuno Grande (1966) é arquitecto e docente universitário. Lecciona as disciplinas “Projecto V” no Departamento de Arquitectura, na Universidade de Coimbra (DARQ/FCTUC) e “Urbanística Contemporânea”, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). Escreve em revistas da especialidade e prepara a sua Tese de Doutoramento pela Universidade de Coimbra, sobre a relação entre Políticas e Espaços Culturais. Foi convidado a moderar os três debates da iniciativa Porto Redux.
[1] Ver FLORIDA, Richard, The Rise of the Creative Class: And How It's Transforming Work, Leisure, Community and Everyday Life. New York: Basic Books, 2002

Breaking News : Bolhão

E a noticia que se esperava (sem surpresas) desde janeiro de 2006:
Câmara do Porto anula adjudicação das obras do Mercado do Bolhão à TCN
A Câmara Municipal do Porto anulou hoje a adjudicação das obras do mercado do Bolhão que tinha sido feita à empresa TramcroNe (TCN), foi hoje anunciado em reunião camarária.No passado dia 11 Rui Rio tinha afirmado que na próxima reunião de câmara, que ocorreu hoje, tudo ficaria esclarecido sobre o projecto a apresentar pela TCN para as obras a realizar no Bolhão.Mas hoje a decisão foi pela anulação da adjudicação.A solução inicial da TCN para o Bolhão previa a transformação do interior do mercado num espaço com sete pisos (sendo dois subterrâneos para estacionamento), um dos quais para habitação. A parte destinada ao comércio de frescos ocuparia uma parte do piso com entrada pela Rua de Fernando Tomás, desaparecendo completamente dos outros espaços.Depois de apresentar um anteprojecto, com um desenho virtual do Bolhão requalificado, a TCN foi confrontada, em conversações informais com os representantes do Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico), com a impossibilidade de aprovar um projecto com aquelas características.Desde então, a empresa tem trabalhado em ideias alternativas, mas, conforme confirma uma resposta escrita enviada ao PÚBLICO a 8 de Setembro, até essa data não tinha dado entrada qualquer projecto de reabilitação do Mercado do Bolhão na Direcção Regional de Cultura do Norte (que deve dar parecer favorável a um projecto antes de o remeter para o Igespar). Aquando da conferência de imprensa convocada para o passado dia 1 de Agosto, Lino Ferreira, vereador do urbanismo, avisou a TCN que, caso não assinasse o contrato no prazo de 30 dias, pediria a anulação da adjudicação do mercado, reteria a garantia bancária, de 250 mil euros, e avançaria com uma acção judicial contra a empresa.
[noticia via público]

30.8.08

News - TCN pronta a assinar contrato do Bolhão desde que exista uma "cláusula de conforto" [Público]

A novela Bolhão prossegue com novos desenvolvimentos. É impressionante como é possível lançar um concurso público nestas condições. Entretando decorre a vida no mercado, perdem-se oportunidades e tempo. Aqui fica a notícia do Público:

Passou um mês, mas a posição da TramCroNe (TCN) não sofreu grandes alterações. No início de Agosto, o vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, Lino Ferreira, avisou a empresa à qual foi adjudicada a recuperação e exploração do Mercado do Bolhão que tinha 30 dias para assinar o contrato de concessão. Caso contrário, a câmara ameaça levantar a garantia bancária de 250 mil euros e processar a empresa. O prazo chega hoje ao fim e o responsável da TCN, Pedro Neves, reafirma: "Estamos prontos a assinar um contrato que inclua uma cláusula de conforto onde esteja definido que, caso a nossa proposta de base não possa ser executada, podemos desenvolver um projecto que respeite os princípios do desenvolvimento urbano sustentável".Trocando em miúdos: assinar contrato, sim, mas que não obrigue a cumprir a proposta inicial apresentada pela TCN. Até porque o Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) já deixou claro que não a aprovará. [ler artigo público]

+++ O Mercado do Bolhão no opozine

6.7.08

Porto Redux - algumas fotografias!


Algumas fotos online do seminário e do workshop que decorreu em Abril dedicado à reabilitação urbana [ver aqui]
Brevemente: As cinco propostas para o Mercado do Bolhão!

11.5.08

Bolhão Redux - monumentos do passado, monumentos para o futuro

Após as primeiras vagas do Porto Redux e antes do workshop dedicado ao Bolhão, importa lançar algumas linhas de reflexão, acerca do que deverá ser o futuro do mercado... [mais]
#Pedro Oliveira [OPO]
[+++] Black box architecture

26.4.08

Porto Redux no Público

Futuro do Mercado do Bolhão dominou o segundo debate do seminário Porto Redux
26.04.2008, Sara Santos Silva

Rui Losa, da Porto Vivo, foi o único a defender a solução que a câmara, SRU e TramCroNe definiram para o mercado portuense

Na segunda sessão do seminário Porto Redux que a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto está a promover sobre reabilitação urbana, as intervenções tiveram em comum o facto de partirem do geral para convergirem no caso do Mercado do Bolhão. Sem que, no entanto, se chegasse a um consenso.

Entre os convidados, houve muitos que defenderam que, num edifício singular e útil como o do mercado portuense, não há muito espaço para alterações. Mas houve também quem tentasse explicar que uma cidade vive de destruições e de transformações que respondem a novas necessidades.Uma casa degradada na Rua de Miguel Bombarda, no Porto, acolheu anteontem as opiniões dos arquitectos Alexandra Gesta e Nuno Portas, do geógrafo Rio Fernandes, do presidente da Associação Comercial do Porto, Rui Moreira, e de um arquitecto da sociedade de reabilitação urbana Porto Vivo, Rui Losa.

Nuno Portas não pôde estar presente e enviou um texto que serviu de mote à discussão. Sobre a polémica do Mercado do Bolhão, o arquitecto disse-se convicto de que, "não fosse a trapalhada administrativa da Câmara do Porto, ter-se-ia chegado a uma solução consensual". Segundo Nuno Portas, o afã de decidir impediu o poder político de perceber que todos os antecentes históricos mostravam que a alienação do património não é solução. Rio Fernandes advertiu que "embonecar o Bolhão é adulterá-lo, é perder diversidade e empobrecer, imitando um qualquer shopping". O geógrafo acrescentou que se deve salvaguardar e potenciar o mercado, de forma a que a arquitectura sirva as suas funções e convidou a Câmara do Porto e a empresa concessionária TramCroNe a visitarem o mercado La Boqueria, em Barcelona e outros mercados que fazem parte da identidade de várias cidades europeias.

Alexandra Gesta questionou a assistência sobre o mercado. "O Bolhão sofre de pouca utilização? De poucos lojistas? Ou de estacionamento? Não me parece. Não sofre com certeza por ser fruto de um mau projecto de arquitectura. Então de que sofre o Bolhão?", perguntou, deixando implícita uma opinião semelhante à das intervenções anteriores.

"Progresso"

Rui Losa, da Porto Vivo, foi o único que se afastou dos pontos de vista dos restantes convidados, referindo-se à necessidade de destruição para servir o progresso. "O Porto não é Conímbriga nem Machu Picchu", sublinhou. Apesar de definir o Bolhão como um "excelente mercado que deve continuar a sê-lo", Rui Losa disse que este tem agora a necessidade e a oportunidade de se transformar, até pelas graves patologias arquitectónicas de que padece.

Antes de se pronunciar sobre o Mercado do Bolhão, Rui Moreira, da Associação Comercial do Porto, mostrou o seu desacordo em relação à actual utilização do Mercado Ferreira Borges, que considera inútil e nefasta. Avisou ainda que o que se pretende fazer com o Bolhão implica uma alteração de hábitos da população que pode acabar por tornar a cidade num território hostil.
[foto: Porto.Redux]

15.4.08

Porto Redux ou>(re)habitar a cidade

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Seminário e Workshop de reabilitação urbana
Seminário 19, 24 e 30 de abril workshop 30 de abril a 04 maio
*Espaço Oficina da Galeria Fernando Santos (em frente ao ccbombarda)

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Introdução>
Redux > latim: significa trazer de volta ou revisitar. Significa voltar à cidade, trazer de volta à cidade todos os actores do processo de transformação urbana – agentes técnicos, artísticos, políticos, o público e outros mais. (Re)pensar, (re)flectir e ensaiar hipóteses para o Porto, compreendendo a arquitectura como plataforma de mediação e intervenção na cidade. A arquitectura deve-se expôr à cidade, comunicar-se como dispositivo fundamental de relação dos habitantes com a sua cidade.

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Objectivos>
a) Abrir a Universidade do Porto, a Faculdade de Arquitectura, os seus estudantes e os arquitectos, cada vez mais distantes e ausentes, das novas dinâmicas da cidade e das problemáticas emergentes dos processos de reabilitação urbana

b) Discutir e apresentar hipóteses que operem sobre os processos de transformação urbana da cidade do Porto. Fundados na necessidade de trabalhar sobre uma visão crítica e dinâmica do património e da sua função no contexto dos novos fluxos que as cidades contemporâneas geram e podem gerar.
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Temas>
O Mercado do Bolhão é assim o primeiro caso, entre outros edifícios e espaços identitários da nossa cidade, que foi seleccionado para dar início a um conjunto de reflexões teóricas e práticas sobre as recentes transformações que se estão a operar nas cidades. Interessa a este seminário e workshop que o mercado do Bolhão e a sua reabilitação sirvam de mote para uma reflexão alargada acerca das novas dinâmicas, fluxos e interesses que circulam na cidade e que motivam o processo de reabilitação urbana. Nesse sentido, procura-se por um lado compreender a arquitectura como um processo e dispositivo fundamental trans-disciplinar de intervenção na cidade capaz de integrar todos os diferentes actores de transformação do espaço, por outro lado compreender o património, dentro de uma visão dinâmica e operativa, como elemento caracterizador e catalizador do processo de mutação/renovação das cidades.
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*Seminário
Programa>

#19 Abril [Sábado] – 18h
Sessão de Apresentação.
Património – Culturas urbanas
Pedro Gadanho [Arq] + Álvaro Domingues [Geo] + Nelson França [Econ] + Correia Fernandes [Arq]
Moderação: Nuno Grande

#24 Abril [Quinta] – 19h
Cidades – emergências + permanências
Nuno Portas [arq] +
Joaquim Branco [sru] + Rio Fernandes [geo] + Alexandra Gesta [arq] + Rui Moreira [econ]
Moderação: Nuno Grande


#30 Abril [Quarta] – 19h
Arquitectura – Mediação + intervenção
Eduardo Souto Moura [arq] +
Miguel Von Haffe Pérez [cri] + Pedro Leão Neto [arq] + Francisco Barata [arq]
Moderador: Nuno Grande
>As sessões irão decorrer no espaço Oficina da Galeria Fernando Santos<
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*Exposições
#19 abril - 04 maio
O Mercado do Bolhão e a cidade. Cinemarchitecture
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Organização>
CCRE
Opozine
Dédalo
MIPA
Parceiros>
UP, FAUP, AEFAUP
Apoios>
Galeria Fernando Santos, CCBombarda, OASRN, Pimenta Rosa, Famous Grouse, Papelaria Modelo, Halógeneo, Alfândega Filmes
Contactos>
porto.redux@gmail.com
AEFAUP - 22 600 12 91

14.4.08

Porto Redux. Workshop>



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Workshop
Parte 1: Mercado do Bolhão
30 de abril a 04 de Maio
Espaço Oficina da Galeria Fernando Santos

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Programa>
#30 abril [Quarta]
Pré-apresentação do workshop.
#01 – 04maio [Quinta – Domingo]
Workshop. Clusters [intervenções exteriores]
#10 maio [Sábado]
Sessão pública de apresentação
Correia Fernandes + Souto Moura + Graça Dias


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Estratégias>

Coordenador: Manuel Correia Fernandes + Pedro Leão Neto
Arquitectos: Atelier da Bouça + Nuno Brandão + André Eduardo Tavares + Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos

As quatro equipas deverão desenvolver uma proposta para uma revitalização do Mercado do Bolhão, mas reflectindo ao mesmo tempo sobre o processo de reabilitação urbana:
»Compreendendo a Baixa como um dispositivo essencial da dinâmica cultural, social e económica das cidades.
»Compreendendo a importância da arquitectura como dispositivo multi-disciplinar, de resposta às constantes transformações da cidade.
»Compreendendo a importância de uma visão dinâmica e operativa do património no contexto dos novos fluxos que as cidades geram e podem gerar.
»Explorar as potencialidades da plataforma colaborativa CCRE para a comunicação entre os diversos elementos das equipas projectistas e as diversas soluções encontradas para um público mais alargado.

Clusters>
Mercado do Bolhão: Perspectiva histórica.
Dinâmicas privadas:
Atlas de Projectos:
Plataformas digitais:
[e outros]

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Local>
O workshop e seminário irão realizar-se no espaço Oficina da Galeria Fernando Santos – em frente ao CCBombarda
Inscrições>
Pré- inscrições de 14 abril a 24 abril na AEFAUP, na Galeria Fernando Santos e na A.A. Universidade Lusíada.
Selecção - 25 de abril
Pagamento do valor após selecção: 29 de abril na AEFAUP ou por transferência bancária:
NIB. 0035 0160 000 581 62 43050 AEFAUP [envio de comprovativo com nome, via fax: 22609 3813 ou e.mail: porto.redux@mail.com]
O Preço da Inscrição será de 25 Euros (FAUP) 35 euros (Outro)
O workshop e o seminário estarão dentro do programa de créditos da OASRN.
Organização>
CCRE, Opozine, MIPA, Dédalo
Informações>
http://web.ccre.arq.up.pt/
http://www.opozine.blogspot.com/
http://www.portoredux.blogspot.com/
Contactos>
porto.redux@gmail.com
AEFAUP - 22 600 12 91

3.4.08

user's guide - arquitectura + cidade [março]

01#Conferências Mercado do Bolhão
#Bolhão - Património Humano e Arquitectónico: João Teixeira Lopes, José Rodrigues, Lino Tavares, Joaquim Massena, Correia Fernandes. [Orfeão do Porto, 18h30] #03 abril
#Bolhão - Património Comercial e Cultural: Rui Moreira, José Emidio, Joaquim Massena, Correia Fernandes.
[Orfeão do Porto, 18h30] #10 abril
[mais]

02#Em Trânsito: Andrea Deplazes
Inventioneering Architecture
Autor de Constructing Architecture – Materials, Processes, Structures: A Handbook – publicação premiada em 2006 com o RIBA Bookshops International Book Award - Andrea Deplazes nasce em 1960 em Chur (Suíça) e forma-se em 1988 na ETH-Zurich, sob a tutela do Professor Fábio Reinhardt.
O seu objecto de reflexão centra-se na procura de soluções para sistemas de construção de pré-fabricados em madeira, trabalho que desenvolve em estúdio com os seus alunos e que incide sobre a particularidade das estruturas sustentáveis nos Alpes Suíços. Esta preocupação é, também, visível no trabalho do atelier Bearth Deplazes Architekten, do qual é sócio desde 1995, atelier responsável por obras como a Chair-Lift Station em Arosa e a Meuli House. São, também, autores de um vasto espectro de projectos de arquitectura e design, incluindo obras públicas, design urbano, habitação e edifício industriais, cuja especificidade é a construção em madeira. [in OASRN]
[Casa da Música, 21h30] #05 abril [mais]

03#Cinemarchitecture
Seminário e Workshop Internacional
Resultando de uma pareceria da FAUP e de outras instituições e Universidades Europeias vai-se realizar nos próximos dias 7 e 8 de abril um seminário internacional, que visa reflectir sobre as relações e afinidades entre cinema e arquitectura. Irá contar com a presença, entre outros, de Manoel de Oliveira [realizador], Nuno Portas [Arquitecto], João Lopes [Crítico].
[FAUP, 10h-18h] #07 08 abril [mais]


04#Arquitecturas em Palco
João Mendes Ribeiro
Integrada nas Comemorações do Dia Mundial do Teatro, inaugurou, no dia 25 de Março, pela primeira vez em Portugal, a exposição que ganhou a medalha de ouro na categoria "Best Stage Design", na 11ª Quadrienal de Praga, em 2007 - representação oficial portuguesa organizada pela DGArtes.
Arquitecturas em Palco aborda a cenografia enquanto experimentação de processos de linguagens comuns à arquitectura, organizando-se a partir de núcleos temáticos fortemente apoiados em textos conceptuais, materiais gráficos, desenhos, fotografias, maquetas e peças audiovisuais. Após a representação oficial portuguesa na Quadrienal de Praga, a DGArtes promoveu a itinerância internacional da exposição que, ainda em 2007, foi apresentada em Barcelona, no Fomento de Artes & Desenho (FAD) e em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake. [in Dgartes]

[Teatro Nacional de São João, 14h-20h] » 11 maio [mais]

29.3.08

Mercado do Bolhão num sábado de manhã



#As cidades são feitas daquilo que as distingue umas das outras. O Mercado do Bolhão é um desses sítios que anuncia e diz em voz cheia: Estamos no Porto!

9.3.08

Black Box - O Palast der Republik I [Vasco Cortez]*


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#Palast der Republik
[Berlim 1973-1976]
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A propósito da discussão em torno da demolição do mercado do Bolhão, lembrei-me de uma outra discussão que por estes lados também circulou há algum tempo atrás e da qual ainda se ouvem alguns ecos, esta em torno da demolição do Palast der Republik.
O Palast der Republik é um edifício construído no centro de Berlim-Leste entre 1973-76 no local do antigo castelo (Berliner Stadtschloss) que tinha sido parcialmente destruído na Segunda Guerra Mundial e que foi demolido pelo governo da República Democrática Alemã em 1950. Servia de sede do Parlamento da Alemanha de Leste (Volkskammer) mas também tinha dois auditórios, galerias de arte, restaurantes e bowling. Em 2003 o governo (da actual República Federal da Alemanha) decidiu demolir o edifício, com o objectivo de reconstruír o antigo castelo da cidade. Esta demolição iniciou-se em 2006 e ainda está em curso.
Que sentido tem tudo isto? Em várias cidades alemãs (e de outros países afectados pela Grande Guerra) se tem procedido a uma sucessão de construções/reconstruções de edifícios e quarteirões com o objectivo de repor a história ao seu lugar, seja ao nível do objecto-ícone, seja ao nível do conjunto-ambiente espacial. Em Dresden, por exemplo (cidade que foi severamente destruída durante a guerra), após sucessivas reconstruções de vários edifícios da cidade, foi reconstruída muito recentemente, a Catedral (originalmente do século XVIII), praticamente do zero. No entanto, o caso do Palast der Republik parece-me o mais caricato a que tenho assistido.
É bastante discutível a atitude do governo da RDA. Perante um edifício meio destruído, havia três caminhos a seguir: mantê-lo como está, meio destruído (como foi feito por exemplo com a igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtnis na zona do Zoologischer Garten), reconstruír a parte destruída e repô-lo àquilo que era (como é o caso da maioria dos edifícios históricos em Berlim), ou então destruí-lo. A opção neste tipo de dilema é sempre discutível e sempre polémica, é certo. O peso político da decisão não pode ser negado: o castelo simbolizava o imperialismo prussiano, e esta decisão terá assim sido sobretudo uma decisão política, também ela discutível.
Mas destruír um edifício para reconstruír um que estava no seu lugar e que foi destruído há mais de 50 anos, parece-me ainda mais discutível. É também aqui clara a afirmação política desta demolição - a tentativa de apagar os símbolos do passado socialista da cidade. Em nome da história e do património defende-se a destituição de outra parte da história e do património. Serão os últimos 50 anos de história menos valiosos que os séculos anteriores?
Parece-me que vivemos numa época em que o património tem um grande peso, mas tendemos a valorizá-lo de uma forma um pouco estranha. Na questão do património, sobrevaloriza-se o passado longínquo em relação ao passado recente e ao presente e desvaloriza-se o carácter funcional e utilitário do património. Sucedem assim duas situações ridículas: por um lado, cómicas reutilizações do socialmente aceite património, onde preservar um edifício representa preservar a sua fachada (mesmo que já nem seja a original) e demolir e refazer um interior que nada tem a ver com o exterior, numa mistura de shopping center com rua comercial, centro de diversões, etc. Este é o exemplo do futuro Bolhão, por exemplo, e segundo consta também do futuro castelo de Berlim, onde serão reconstruídas as fachadas e inventado um novo interior de shoping disfarçado de castelo. Por outro lado, ao mesmo tempo que se sobrevalorizam determinados ícones, desvaloriza-se um outro património que por ser mais recente ou simplesmente menos espectacular e emblemático, é rapidamente ignorado e muitas vezes demolido. Este tipo de património discreto e abandonado abunda na cidade do Porto, como são exemplo as casas do século XIX, mas também edifícios e outras estruturas do passado século (XX).
Parece-me que urge uma reflexão geral em torno da questão do património, mas uma reflexão séria, para que se acabem com as demolições disfarçadas de reabilitações, com as demolições para posteriores reconstruções e com as reinterpretações ao estilo da época. Parece-me que só uma sociedade informada e esclarecida em torno destas questões, pode acabar com este tipo de situações.
*Vasco Cortez [Berlim]
Fotos: Wikipédia (1977), Vasco Cortez (2005 e 2007) e Francisca Martins (2007).
Nota PB: Também relacionado com este tema, nomeadamente, sobre uma intervenção artística no Palast der Republik e sobre a cidade-fanstasma de Dresden, foram já publicados em outros sítios textos sobre as questões filosófico-históricas que motivam esses processos de reabilitação e que o Vasco Cortez muito bem levantou aqui levantou. No seguimento dessa discussão irão ser publicados novamente.

1.3.08

Black box - Arquitecto Pedro Gadanho no Público

#O arquitecto Pedro Gadanho escreveu na quinta-feira passada, no Público, um artigo que me parece lapidar: sobre os arquitectos, sobre a Ordem, o estado da profissão e sobre a intervenção e o papel destes na sociedade. Algo que também eu já abordei a propósito do Mercado do Bolhão e da ausência de intervenção destes sobre os problemas da cidade. Onde Param os Arquitectos Portugueses? é o título deste texto, que eu tomo a liberdade de aqui publicar:
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Onde param os arquitectos portugueses?
"Agora que se repetem as eleições para a Direcção Nacional da Ordem dos Arquitectos, é porventura importante perguntar onde tem parado os arquitectos portugueses nos tempos mais recentes.
Quando há 10 minutos atrás se abateu o silêncio ensurdecedor sobre o facto do primeiro-ministro português assumir a autoria do que podem ser considerados crime estéticos e uma aberração cultural, pareceria lógico perguntar onde param os arquitectos portugueses.
Agora também urge perguntar onde eles param quando, numa espécie de projecção suicida das tendências vigentes entre a população portuguesa, é esperada uma participação de cerca de 15% nas eleições para a Ordem dos Arquitectos.Falta de auto-estima da classe profissional? Falta de opções? Ou pura falta de interesse? Alguma coisa está certamente em falta.
Face a outras classes profissionais liberais que disputam árdua e publicamente aqueles que vão representar os seus destinos, os arquitectos portugueses espelham bem o estado corrente do país.
Não é de admirar que exista um absentismo absoluto. Com a explosão "democrática" dos cursos de arquitectura, os arquitectos deste país são hoje uma perfeita amostra demográfica do país que temos. E ainda bem.
Porém, o que é eventualmente mais grave é que, apesar da sua formação superior, os arquitectos podem, assim, estar a ecoar a cultura cívica - ou a crise social de que falava a Sedes - com que hoje contamos em Portugal.
Comecemos pela crise. Não é de excluir a hipótese de que o absentismo eleitoral dos arquitectos se explica por razões bastante prosaicas.
A maior parte dos arquitectos, nomeadamente os mais jovens e desfavorecidos da classe não votam porque... não pagaram as quotas!
E porque é que não pagaram as quotas? Porque estão desempregados ou porque são tão mal remunerados que tem naturalmente que remediar outras necessidades mais básicas. Interessante, não é?
Isto sugere imediatamente que, se estão verdadeiramente interessados na participação eleitoral, os candidatos aos órgãos nacionais da Ordem dos Arquitectos deviam acordar um pacto de regime súbito: uma amnistia - ou, ecoando a extraordinária flexibilidade legislativa portuguesa, uma alteração estatutária temporária - para permitir que todos votassem nestas eleições.
Adiante. Subsistem ainda algumas outras possibilidades para justificar o absentismo geral dos arquitectos. Também é verdade que muitos dos 16.000 arquitectos a que me refiro estão no estrangeiro. Face a uma tendência autofágica da classe arquitectónica portuguesa - que também lembra outra coisa qualquer - muitos dos arquitectos recentemente formados decidiram, pura e simplesmente, emigrar.
Isto é, o investimento e a permissividade do Estado na formação superior desta classe traduz-se, como já acontecia com cientistas e outras especializações de ponta, em exportação de cérebros ou de mão de obra competente, enquanto por aqui nos vamos lamuriando de desordenamento do território. Interessante, não é?
Esta é, aliás, uma resposta à questão que dá título a este artigo que combina perfeitamente com o equívoco ético e estético que recentemente envolveu o engenheiro civil José Sócrates.De facto, para quê pagar o custo dos serviços, dos recursos humanos e da competência técnica nas quais o Estado investiu os impostos dos contribuintes, se ainda há por aí uns chico-espertos que dão conta do recado e da paisagem?
Os chico-espertos - que às vezes até são arquitectos pois, afinal, eles também "andem aí..." - saem mais barato, têm uns contactos na Câmara local que "facilitam a coisa" e até foram os primeiros a perceber que mais vale fazer o gosto ao dedo do cliente, que isto não está para modas.
Mas, perguntar-se-á então, a arquitectura não estava na moda?Depois da celebração e da celebridade de Siza Vieira e de Eduardo Souto Moura, os arquitectos não deveriam andar por aí felizes da vida?Não adquiriram prestígio social e profissional?
Não obtiveram reconhecimento no "estrangeiro"?Não tiveram, nos últimos 15 anos, maior exposição mediática interna do que médicos, advogados e engenheiros?
Tendo eu realizado um doutoramento sobre a visibilidade da arquitectura em meios generalistas como o jornal O Público, posso assegurar que todas estas hipóteses são sustentadas e confirmadas por dados objectivos. À excepção, claro, da parte da felicidade.
Curiosamente, em Portugal, a celebridade, a projecção e o prestígio não fertilizaram o campo. Deve ser uma característica endógena. Ou o facto de, apesar das aparências, sermos um país estruturalmente pobre.
As circunstâncias mudam e as conjunturas também e, depois de uma prolongada ascensão demográfica e mediática, os arquitectos portugueses parecem, de novo, ter desaparecido para parte incerta.
Apesar das campanhas do "direito à arquitectura" - já agora, algum não arquitecto ouviu falar disto? - os portugueses ainda não parecem estar dispostos a pagar a mais-valia do serviço arquitectónico.
Isto também justifica a ausência dos arquitectos.
E donde vem o problema? Será que os portugueses não valorizam ou não podem valorizar a sua qualidade de vida ao nível de outros países europeus? Será que não podem, pura e simplesmente, pagar os serviços de um arquitecto preferindo assim entregar-se assim às competências dos chico-espertos? Será que têm de facto a sua própria cultura de gosto e preferem decidir por si? Ou será que a tabela de honorários dos arquitectos é desadequada à realidade do país? Ou serão as regras de mercado que estão a distorcer a oferta e a procura? Ou acontecerá, afinal, simplesmente, que os arquitectos deviam ser pagos por área a edificar e respectivo preço médio oficial de construção em vez de auferirem remunerações que flutuam com o preço final de obra - assim se acabando com muitos jogos de bastidores que prejudicam clientes e destinatários e assim se esvaziando também as distorções deontológicas que fazem com que seja um contrasenso económico para o arquitecto invistir tempo e recursos na redução de custos de obra do seu cliente?
Das mais gerais às mais prosaicas, estas, como muitas outras, são questões que justificam uma tomada de consciência e de posição dos arquitectos e dos seus legítimos representantes face à imagem que projectam de si próprios enquanto classe profissional.
Dado o contexto particular da nossa auto-proclamada "West Coast," talvez os portugueses ainda não tenham percebido, de facto, qual o papel que a arquitectura pode desempenhar no seu dia-a-dia e na sua qualidade de vida colectiva.
Afinal, a maioria dos portugueses só sabem de longe da vã gloria dos centros culturais desenhados por arquitectos de "qualidade arquitectónica reconhecida" que, entretanto, tem as suas portas encerradas por faltas de verbas, programas e atractivos. E alguns mais iluminados só sabem que se tiverem dinheiro para investir em condomínios privados de luxo é bom que haja um "arquitecto de renome" envolvido.Visto que assim já sabemos onde param os portugueses, onde param, entretanto, os arquitectos portugueses?
Onde param os candidatos a estas eleições da Ordem dos Arquitectos, esses que devíamos estar a ver e ouvir nos media de massa a exporem os seus programas, as suas opiniões públicas, as suas posições, as suas diferenças, as suas reflexões e proposições sobre o estado da prática da arquitectura em Portugal?
Onde param, neste preciso momento, as luminárias da arquitectura portuguesa, essas que prometeram mais intervenção crítica e social?
Onde param os críticos de arquitectura e os formadores de opinião, esses que, neste preciso momento, deviam estar a contrapor visões e perspectivas sobre o que precisa de mudar nos consensos excessivos em torno das vias únicas que actualmente caracterizam a arquitectura portuguesa?
E, para além dos emigrados, dos desenrascas e dos dignos representantes da geração rasca, onde param esses " "jovens arquitectos" que constituem a maior parte dos arquitectos inscritos na Ordem e que agora se remetem, como é sua condição geracional mais vasta, a um silêncio comprometido com o status quo?Por este andar, onde vão parar os arquitectos portugueses?"

#Pedro Gadanho [publicado no Jornal Público]

14.2.08

Cityscope - Um pouco menos de silêncio!


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News
#Concentração no Mercado do Bolhão, sábado, 10h [ver]
#Petição online [ver]
#O Mercado do Bolhão foi classificado como imóvel de interesse público [ver]
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Deixo aqui as respostas às perguntas colocadas por Correia de Araújo no seu último post na baixa do porto:

#O Mercado do Bolhão vai manter a sua traça original? Não, o que o projecto propõe é uma demolição total do interior e a total reconfiguração de todos os espaços, reduzindo para ¼ a actual área do mercado. A cobertura, os pisos intermédios, as torres da habitação, e toda a demolição do programa interior, irão desqualificar a estrutura arquitectónica existente e retirar o seu pontencial urbano e turístico.
#A demolição do miolo interior é necessária? Não conheço nenhum estudo que aponte como necessária a total demolição do espaço interior do edifício. O que é importante é adicionar novas funções, novos programas, que captem novos públicos e modernizem a estrutura. Sem que isso signifique destruir parte significativa do edifício.
#Está previsto estacionamento subterrâneo? Sim, "o projecto prevê dois pisos subterrâneos para cargas/descargas e estacionamento, com capacidade para mais de 200 automóveis." Mas sim, dois pisos mais, contando com a extensão total do piso actual que liga à rua fernandes tomás (que hoje funciona apenas em galeria).
#É só o projecto da TramCroNe que contempla estacionamento subterrâneo? Não! Ninguém põe em causa a necessidade de um estacionamento, nem de novos programas, nem da modernização da estrutura. Desde que isso não seja feito à custa da demolição parcial do edifício. Acrescentar e não retirar.
#E quanto à fachada do edifício? Apenas a fachada vai manter-se. Nos torreões do edifício surgirão torres de habitação (como já se pode ver em desenhos recentes)
#Habitação? Sim, e não vai ser em número reduzido a ver pelos últimas informações. Queremos mais habitação para a Baixa, mas recuperando os milhares de imóveis abandonados espalhados pela baixa.
#O que está previsto para os diferentes pisos? Área total = 25.730 m2; Lojas = 11.395 m2 (44% da área total); Supermercado = 3.125 m2 (12%); Habitação= 2.500 m2 (10%); Restaurantes = 1.450 m2 (6% da área total); Mercado = 760 m2 (3% da área total e cerca de 1/4 da área actual). Presumo que os 25% (6500m2) restantes serão para circulações, armazéns e estacionamento.
#Será mais um Centro Comercial na Baixa? Sim, a definição de centro comercial é uma superfície coberta, interior, de grandes dimensões, que junta uma grande diversidade de programas e funções. Não interessa se é puro e duro ou às cores ou às riscas.
#Então o que se pretende? O projecto da TCN pretende construir um shopping, não pretende reintroduzir moda nenhuma europeia dos mercados. Porque ele vai ocupar apenas 3% da área total do futuro edifício e porque a TCN é uma empresa habituada em investir em projecto de retail, outlet, shoppings e não em edificios históricos!
#Um mercado à semelhança do londrino Covent Garden? Sim, mas a reconversão do Convent Garden, não implicou a destruição do interior do edificio, bem pelo contrário, conseguiu-se modernizar sem destruir. Um exemplo sem dúvida! Manteve-se a cobertura, as estruturas, reorganizaram-se os espaços e as funções, mantendo o seu carácter histórico, turístico e urbano. Vejam aqui um pouco da história do convent garden. Aqui a imagem comparativa será antes, Les Halles em Paris [antes e depois]. Um redundante fracasso, que espera agora uma solução.
#E a polémica em torno deste projecto? Uma polémica normal numa sociedade europeia e evoluída, dado a má gestão do processo e a muito má qualidade da proposta apresentada. Estranho é o processo já ter chegado até aqui.

Caro Correia Araújo, o projecto para o mercado do bolhão levanta, quanto a mim, dois problemas: um problema de estratégia de cidade, de modelos urbanos, e, evidentemente, aqui cada um pode ter a sua visão pessoal. Eu penso que esta se constroi regenerando-se, reconstruíndo-se e não destruindo-se, provavelmente pensará de um outro modo. O outro problema: é uma questão de arquitectura. E neste ponto não restam grandes dúvidas, o projecto que a TCN nos deu a conhecer até agora é para qualquer arquitecto um mau projecto de arquitectura. Uma má hipótese de projecto e um desprezo total pela estrutura existente. Existem outras formas de rentabilizar, renovar e requalificar o mercado do bolhão sem que isso signifique a perda de um ícon histórico, urbano e cultural.
Encontrar esse equilíbrio é o papel do arquitecto. Mas em Portugal (ao contrário da Europa) o arquitecto é um ser estranho, é o tipo que nunca conseguiu ser engenheiro, metido no seu gabinete, faz umas casas estranhas. Despreza-se em Portugal (arquitectos incluídos e a sociedade em geral) a função interventiva destes na cidade, o seu papel social e cultural de mediador de interesses e construtor de soluções. Por isso, não ouvimos a Ordem, nem as suas secções regionais, nem os arquitectos no problema do Bolhão.
Um pouco mais de ruído, um pouco menos de silêncio, é o que a cidade precisa.

*Pedro Bismarck [
opozine]